bad temper

Nanoconto de terror

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Janeiro 18, 2010

- Rápido, segure a minha cabeça!

36ºC

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Janeiro 12, 2010

Os afeitos a clichês diriam que faz um calor senegalês. Os de literatura, que se sentem em um romance de García Márquez. Os mais pecadores pensariam que chegaram ao inferno sem chance de se redimir. Os apreciadores de funk afirmariam que o calor tá de matá. Os das antigas cantariam alalaô. E eu, em coro, agradeceria: obrigada, Willis Carrier.

Ah, o natal.

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Dezembro 22, 2009

manhã de chuva. decidiu-se: aquele era o dia. todo mundo pulou da cama e se posicionou, usando pijamas e bocejos. depois de alguns minutos, as caixas começaram a chegar na sala. todas resgatadas do fundo de um armário que fica no fundo da casa. lá elas tinham permanecido, fechadas, silenciosas e resignadas, durante onze meses. abertas uma por uma, foram mostrando o trabalho que a família tinha pela frente: posicionar, pendurar, montar. A caixa maior tinha também a maior atração: a árvore. Ainda não-árvore, só um amontoado de galhos dobrados e encaixáveis. Em duas horas, penduricalhos tomaram o seu lugar, velas encaixavam-se nos candelabros específicos, presépios e enfeites diversos espalharam-se sobre as superfícies planas da casa. E toda a família, de olhos fechados, já sentia aquele típico cheiro de natal que os atormentava até janeiro: mofo.

Clichê astrológico – no caso, eu.

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Abril 20, 2009

Fiz um mapa astral on-line.
E, como se passar esse ridículo não fosse suficiente, tenho que me rebaixar ainda mais: 90% dele estava certo.
Ou seja, sem nem saber meu nome, uma entidade digital demonstrou me conhecer razoavelmente bem, baseando-se unicamente no dia e hora do meu nascimento mais meu sexo. É bom ressaltar que o mapa não me ganhou pelas generalidades: ao contrário, acertou coisas bem específicas. Para o meu horror.

Final de semana passado, ganhei uma sessão de reflexologia. Fui desavisada, sem nem saber do que se tratava. Enquanto meus pés relaxavam em uma banheirinha de água morna e sais, o moço se aproveitou da minha guarda baixa e perguntou o dia em que nasci. Pronto. Tranquilamente, ele fez uma longa e acurada dissertação sobre minha personalidade. Explicou desde a minha rinite até as sardas do meu rosto.

E eu, dessa vez bem contrariada, fui obrigada a constatar: sou o estereótipo da astrologia. Pode ser o horóscopo tradicional, o chinês, o javanês. Se quiser saber tudo sobre mim, anota aí: 29 de julho de 1985.

Put the blame on them, boy.

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Abril 8, 2009

Freud tinha a seguinte teoria sobre as mães: a culpa é delas. Sociopatas, narcisistas, melancólicos e mal amados esticam-se horas no divã para chegar a essa verdade psicanaliticamente incontestável. Foi ela. Foi ela e não tem discussão.

E, aparentemente, o tapa austríaco na cara das mães não é tudo. Segundo este documentário, o alimento do alto da cadeia alimentar mais tóxico que existe é, tchanã!, o leite materno. “Os menores membros de nossa sociedade recebem a sua dose mais alta de tóxicos quando estão no colo de sua mãe, vivendo o que deveria ser um ato de amor”.

Ou seja, o movimento parece ser este: mal a criança sai da barriga, já pode começar a jogar na cara.

Baixaria

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Janeiro 19, 2009

Duas palavras são suficientes para atiçar minha felicidade.
Duas, só duas, já deixam o meu dia mais azul e fresco.
Um parzinho que me traz muitas perspectivas e sentimentos bons: download concluído.

Nada como Dex e Yang para deixar tudo melhor.

caso clínico

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Dezembro 5, 2008

Ele tinha as panturrilhas infladas. Enormes, mesmo, como se sopradas por alguém sem graça. E não sabia porque.
Via suas fotos de bebê cuidadosamente, delicadamente, não encontrava nada incomum. As pernas eram gordinhas e muito mastigáveis, sem nenhum crescimento ou sinal indevido.
Nunca fez exercícios demais ou de menos. Não sofrera queda ou lesão grave. Não praticava esportes brutos, não levou pontapés. Seus genes eram perfeitos até onde podiam ser. Os pais, avós, primos, tios, concunhados – todos proporcionais.
Supunha que, um dia, acordara assim.
E então começou a acostumar-se com a curiosidade e as piadas repetidas, que sempre acreditavam ter sido inventadas na hora:
- Nossa, você adubou a batata da perna?!
Aprendeu a sorrir amarelo várias vezes ao dia.
É claro, procurou os médicos, de todos os tipos e sabores. Não havia explicação. Suas panturrilhas infladas eram sem precedentes, caso de congresso, de publicação.
Por fim, sua última consulta o fez desistir de saber. Chegou já meio cansado e entregou a resma de exames ao doutor. Ele olhou, re-olhou, transolhou e, como haveria de ser, não encontrou nada. Perguntou a ele se, nesses quatro dias, alguma coisa tinha mudado. Pela perdi-a-conta-ésima vez, ele respondeu que não, que elas continuavam como se estivessem cheias de ar.
O médico, então, num lampejo bem-intencionado, deu a solução definitiva:
- Já tentou acupuntura?

quer ser minha amiga?

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Dezembro 5, 2008

De uma anônima, na rua:
- É que eu sempre não fui normal.

sua graça

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Dezembro 5, 2008

Estou lendo meu primeiro Guimarães Rosa. “Primeiras Estórias”, para ser bem coerente.
Quem sou eu pra dizer alguma coisa senão isso: tudo é lindo, tudinho.
E os nomes. Deus, os nomes. Meio estranhos no começo, inteiro estranhos no final, supreendentes, perfeitos. Mula-Marmela e o cego Retrupé, Dr. Dartanhã, Maria Exita, Seo Fifino, Damázio, Brejeirinha e o meu preferido: José Satisfeito.

Rosa teve duas filhas.
Seus nomes são Vilma e Agnes.
Não sei se fiquei aliviada ou decepcionada.

variações do mesmo tema

Publicado em Uncategorized por Sofia, em Dezembro 1, 2008

Ela fez sinal para o ônibus e viu a sombra do seu braço no asfalto. A palavra que a torturava há semanas ressoou com raiva: gorda. O ônibus parou e ela subiu os três degraus lembrando da sua manhã. 20 minutos parada diante das portas abertas do armário, simplesmente incapaz de estender a mão e pegar uma roupa qualquer. Os olhos iam e voltavam pelos cabides e, conforme o tempo passava e ela ia ficando atrasada, começaram a mostrar primeiro  desesperança e depois desespero. Não vou conseguir sair de casa hoje.
Relanceou para a cadeira e viu a calça que tinha usado no dia anterior. Essa. Vestiu e fechou os botões com uma força um pouco maior que há dois meses. Gorda. Não cabe. Abriu os botões e, com ódio do alívio que sentiu, tirou a calça. Decidiu-se por enfiar o braço no armário e pegar alguma coisa sem ver. Isso? Não. Próximo. Não. Não. Não.
Em cinco minutos, o chão estava devidamente vestido e ela continuava enrolada na toalha. Foi só quando o horário ficou insustentável – ela percebeu que ia chegar pelo menos meia hora depois do chefe – que agarrou um vestido largo e saiu sem se olhar no espelho. Nos primeiros passos, sentiu que suas coxas se encostavam e por muito pouco não voltou para trocar de roupa. Gorda.
Agora acomodada na cadeira cinza do ônibus, pensava que hoje não ia almoçar. Que passaria o dia a suco sem açúcar e gelatina. E que compraria umas roupas decentes. Ou não. Ali mesmo, fez uma promessa: não compraria nenhuma peça de roupa, nenhum sapato, nenhum livro, nada até emagrecer. Nada. Ótimo. Assim eu economizo.
E sobra mais para comprar uma sobremesa boa.
Dessa vez, a palavra veio mais resignada: gorda.

*****

- Pára de comer, chega.
- Pára você de regular o que eu como. Não agüento essa mania, que saco, me deixa em paz. Até quando eu estava a pessoa mais magra do mundo você ficava me controlando!
- E mesmo assim você engordou.